Uma casa alicerçada sobre o suor de gerações
Este ano cumprem-se os cem anos do início do processo de exploração industrial da Panasqueira. Uma mina que mudou gentes e geografias, criou histórias e lendas
COMO pode mudar quase tudo. Nada nem ninguém ficou indiferente à indústria que mais mexeu com o espírito de um tempo, de uma região. A exploração de minério nas Minas da Panasqueira teve início na década de 90 do século XIX, feita essencialmente em pequenos filões à superfície, com pouca mão de obra. Em 1910, a mina era concessionada à Wolfram Mining and Smelting Company Limited. Dá-se início a um processo de extracção cada vez mais intensivo com as ainda rudimentares técnicas existentes à época. É o prefácio de uma aventura que retirou à força de suor e, por vezes, de sangue, das entranhas da terra milhões de toneladas de minério. Nada seria igual. Foi há cem anos.
As vidas mudaram, a geografia mudou. Em 1928 foi criada a Beralt Tin & Wolfram Limited que explorou as minas até 1973 em que com a incorporação de capitais nacionais passou a designar-se por Beralt Tin & Wolfram Portugal, S.A. Hoje a mina é propriedade da Sojitz Beralt Tin & Wolfram S.A, de capitais japoneses.
Neste trilho do tempo, entramos pela porta do passado para uma sociedade marcadamente rural, pobre, esmagadoramente analfabeta, que caminhou para a proletarização, para os trabalhos da mina, onde se poderia obter outros rendimentos em alternativa ou em complemento a outros, parcos, que se esgotavam nas actividades ligadas ao campo e à pastorícia. Demasiado pouco. Tudo conduzia à pobreza.
Milhares passaram pelo fundo da terra, milhares escavaram, puxaram, suaram, muitos deles penalizados pela doença silenciosa, a silicose, a doença da mina, e pelos sobrantes riscos que o constante desafio à Natureza acarretavam.
A longa travessia pela história marca indelevelmente a vida de uma região que ficou refém da glória e dos tormentos que assombraram a mina. Os períodos áureos fizeram confluir para a região milhares de homens, quando a mão-de-obra local já não dava resposta às exigências. As duas grandes guerras - principalmente a Segunda (1939-1945) - exigiam volfrâmio para endurecer as ligas metálicas no fabrico de armamento. Foram períodos exuberantes da Panasqueira, onde se movimentava uma gigantesca máquina humana. Na década de 40 do século passado chegaram a estar nas minas cerca de dez mil trabalhadores. Um cenário quase cinematográfico. Os coutos mineiros cresciam, as aldeias em volta contavam em milhares as suas populações. A atracção da mina, os altos e os baixos do volfrâmio eram a euforia e a depressão da região que esteve dependente da sua sorte durante décadas. Hoje, as condições de segurança e trabalho são incomparavelmente melhores. O avançar do tempo, da tecnologia, das sensibilidades, fizeram recuar os acidentes no fundo da mina, o aprumar o processo de extracção e transporte fizeram refém no passado grandes odisseias dos trabalhadores da mina. Mas ainda é preciso coragem e destreza. Sempre. A Panasqueira reergueu-se várias vezes ao longo da sua história. Hoje a mina respira com alguma confiança. O volfrâmio que sai das galerias alimenta a indústria eléctrica e automóvel. Ela está ali. A mina, a casa das memórias de milhares alicerçada em suor.
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Memória das Minas da Ira
Não sei quando foi a primeira vez que, de longe, olhei os mineiros da Panasqueira a entrar na “Galeria da Guerra” para descerem ao coração da terra no garimpo do volfrâmio, mas penso que o universo físico e humano das Minas me acompanha desde que tomei ofício de respirar com palavras. À distância, tornei-me companheiro desses mineiros de rosto fechado, que na faina pareciam confundir-se com as entranhas da terra, habitando a noite para ganhar o pão que o diabo amassou. Quando regressavam à luz do sol, eram revistados como trabalhadores de delito comum. Levantavam os braços, como se tivessem armas apontadas, sob a vigilância de algum gnr, cujo destacamento estava ao serviço da multinacional, e eram minuciosamente apalpados, não trouxessem alguma pepita colada ao corpo. A memória abre-se ainda em feridas: a longa gadanha da morte da silicose, as “aldeias de viúvas”, os homens que morriam cedo a cuspir sangue. Em boa parte, essa memória das galerias da mina, com a densa teia social dos seus dramas, está no registo de A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira, que eu e o Daniel Reis escrevemos, com pressa solidária, quando a explosão dos conflitos laborais se transformaram em greves épicas. Fiz muitos amigos nas Minas, lembro-me sempre do Rodrigues e do António Lopes, que aqui simbolizam todos os outros, nas duras lutas sindicais (de que o JF é arquivo insubstituível), tentando furar todos os bloqueios em busca de futuro. Uma dessas imagens ganha agora nitidez, à medida que as palavras lavram a memória: a mina ocupada pelos trabalhadores e eu, com os últimos ocupantes, bem lá no fundo, que recusavam sair e queriam prolongar a ocupação, como se fosse derradeiro território de liberdade. Semanas depois, o António Lopes telefonava de Lisboa, onde decorriam duras negociações, com uma palavra mágica:
– Vencemos!
FERNANDO PAULOURO NEVES
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SIC - Mineiros da Panasqueira em greve reclamam aumentos salariais
RTP - Greve de mineiros da Panasqueira