Os salta-e-pilha do volfrâmio

Faz parte do património histórico das aldeias do Couto Mineiro e incontornavelmente da antiga Cebola. Todos na terra conhecem histórias dos salta-e-pilha.

Fotos e vídeos - Festa dos Mineiros 2011

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Mini Torneio @ S. Jorge da Beira

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Cebola pintada de branco

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Fotos e Videos - Passeio TT Minas da Panasqueira 2011

22 de Maio de 2011, a subida impossível nas Minas da Panasqueira

Domingo, 5 de Setembro de 2010

A vida dos exploradores da alma da terra

Resgatam da escuridão eterna as riquezas da Natureza. Às vezes ela reclama o sangue de um mineiro. Na Panasqueira ou no Chile.

Nenhum homem devia cavar a própria sepultura. Quando abrem as entranhas da Natureza à procura dos seus bens mais preciosos, o medo é latente. O ambiente é inóspito, de isolamento, onde dia e noite são uma longa escuridão, entrecortada por pequenos pontos de luz e barulhos de maquinaria, em galerias abertas atrás dos filões que hão-de ser sugados como a própria vida dos mineiros. Sente-se um estranho fascínio.

Estes homens, cantados por poetas, padres e escritores como Aquilino Ribeiro, em ‘Volfrâmio’, já não andam ao garimpo, não usam canários peritos em cantar o aviso de gases tóxicos, nem ratos que detectam derrocadas iminentes.

Quando amanhã descerem às galerias, depois das férias a céu aberto, os mineiros da Panasqueira (uma das três explorações nacionais em actividade), levam mais um drama partilhado: o dos colegas soterrados vivos no Chile à espera de que as máquinas violadoras de montanhas sejam agora capazes de os resgatar para o mundo dos vivos.

As aldeias das viúvas, cognome dado em tempos a terras como São Jorge da Beira, de onde saíam os homens para as minas, caídos em combate por força do pó da rocha que lhes trespassava os pulmões em forma de silicose, vestem-se hoje de outras cores que a morte anda mais arredia.


MAIS SEGURANÇA

As condições de segurança e saúde dos mineiros nada têm em comum com as dos pioneiros da serra do Açor, nos concelhos da Covilhã e Fundão. Mas, a espaços, das profundezas de uma galeria ouve-se o grito abafado de uma vida que se esvai. O último deu-o um mineiro reformado, Joaquim Ramos Fernandes, 60 anos de vida e 37 de mina, porque a condição não o fez desistir. A 23 de Junho, o maquinista foi surpreendido pela rocha descontrolada que o esmagou num momento em que trabalhava sozinho.

O negro voltou a cobrir uma família de Alqueidão, na Barroca. Ana Florência Fernandes, 60 anos, doméstica, não trava os ais de desespero, enquanto recorda o marido, que "durante toda a vida nunca teve outro trabalho", como a generalidade dos colegas de profissão, muitos oriundos de famílias de Norte a Sul do País, que subiram à serra quando as guerras mundiais fizeram do volfo (volfrâmio para os mineiros) um minério essencial no fabrico de armamento.

"Não sei como foi o acidente. Ele trabalhava de noite e o genro estava com ele, mas ausentou-se para ir buscar uma máquina. Estava a encher vagões e foi atingido pela rocha", diz Ana Florência. "Ele fez lá a vida toda. Tinha prática. Há tantos anos que lá trabalhava, nunca imaginei uma coisa destas. Quando me contaram até pensei que fosse mentira".

O mineiro, atingido pela rocha quando estava num vagão no momento da descarga, deixa três filhos maiores de idade e um genro amargurado. Quiseram convencê-lo a abandonar as profundezas da terra, mas ele não deixou: "ele disse que ia continuar o trabalho que o segundo pai (sogro) lhe arranjou", conta Ana Florência, agora também em cuidados com os mineiros chilenos que vê na televisão: "coitados, ali soterrados... Ai meu Deus!"

DIFÍCIL MAS POSSÍVEL

O corpo foi retirado com a ajuda de Bernardo Teixeira Gouveia, que aos 50 anos leva 29 de trabalho na mina. "Eu nunca estive em risco, mas ajudei a tirar de lá três falecidos, o último há dois meses. Os outros morreram há mais anos. Foi muito doloroso para todos", recorda o jumbeiro (operador de jumbo), salientando, no entanto, que a mina já foi mais perigosa.

"É um trabalho um pouco difícil. Há muita humidade. Há riscos e é duro, mas não há o perigo da silicose como há mais de 25 anos, quando a furação da rocha era feita a seco e a poeira andava toda no ar. Quando chegaram os martelos pneumáticos passou-se a trabalhar com água". Quanto à situação no Chile, onde 33 mineiros estão soterrados a 700 metros de profundidade, destaca o duplo sofrimento dos envolvidos: "é complicado para eles porque não sabem se vão sair, nem como. E é complicado para as suas famílias, que também estão a sofrer".

Na Barroca Grande, alcandorado na encosta, em filas de casas iguais, o bairro dos mineiros lembra na simetria as galerias onde até 300 metros abaixo se extraem os minérios: volfrâmio, cobre e estanho. Os homens gozam os últimos dias das férias de Agosto antes do regresso à labuta de sete horas diárias com direito a meia hora de descanso para a bucha, comida em mesas de madeira rudimentares no subsolo.

A profissão não os assusta por aí além, pelo menos não parece e as palavras até saem escassas o mais das vezes. O tempo de silêncio diário forçado não lhes solta as histórias, antes faz acreditar que delas se desabituaram, habituados que estão a gerações seguidas de filhos do mesmo ofício. José Cunha Campos tem 66 anos, 23 na mina. Um dia, com uns amigos, partiu de Alijó, em Trás-os-Montes, e rumou à Panasqueira à procura de ganhar mais algum dinheiro – uns 1800 escudos (nove euros) no início. "É uma vida complicada, é difícil, embora agora existam os jumbos (brocas mecânicas que furam a rocha, chegadas na década de 1980) e padejadores (máquinas de encher). Eu ainda andei nove anos agarrado a um martelo pneumático". E antes dele andaram outros de picareta em punho a partir pedra e a carregar à pazada os vagões de minério, empurrados por homens ou puxados sobre carris para o exterior por cavalos.

"Aquilo lá em baixo é muito húmido (a temperatura média é de 18 graus). Há dificuldades, como a escuridão, mas tudo vai do hábito. Nunca tive nenhum problema, mas há lugares mais perigosos onde é preciso ter muita atenção. Ainda tivemos de fugir à frente das pedras", descreve José Cunha, reformado, que temia "ouvir o barulho do terreno a partir-se".

HISTÓRIA COMOVENTE

Quando lhe falam da situação dos mineiros no Chile, aí comove-se. Percebe o que está a acontecer-lhes? "Se percebo?! Aquilo custa muito". Se uma situação semelhante acontecesse na Panasqueira, o socorro seria mais rápido e fácil. "Esta é uma mina em rampas, com várias entradas, onde circulam

Local: Minas da Panasqueira, 6225 Covilhã, Portugal

Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

Adeus vitalidade

Emigrantes regressam a casa e deixam aldeias mais vazias

As ruas começam a ficar mais despidas, os cafés com menos gente nas mesas a jogar à sueca e muitas das casas agora de janelas abertas fecham-se para só voltarem a ser abertas no Natal ou no próximo Verão. Os últimos dias têm sido marcados pela despedida. De mais duas famílias que acabam há minutos de partir para a Alemanha, de quem trabalha noutros pontos do País e terminou o período de férias, dos que estudam fora e se preparam para voltar aos livros e abandonar as margens da Barragem de Santa Luzia, local de eleição nas tardes de Verão.

São Jorge da Beira, aldeia no extremo do concelho da Covilhã, voltou à rotina. Não é uma localidade deserta, como acontece com muitas quando os emigrantes vão embora, mas o fim das férias tira-lhe grande parte da vitalidade.

A emigração, ao longo dos anos, foi-lhe sugando energia. Quando a mina fechou a última vez, grande parte dos que resistiam foram obrigados a tentar a sorte noutras paragens. E se na década de 60 o marido se fazia à estrada e deixava a família na terra, nos anos 90 a localidade mineira via ir embora também a esposa, os filhos, os irmãos, os conhecidos, à medida que o aviso de uma janela de oportunidade chegava.

“O que nos sustentava eram as minas, era lá que tudo trabalhava. Quando fecharam obrigaram a gente a emigrar. Quem podia ir embora, foi”, recorda Maria Piedade Campos, de 57 anos, ao balcão da pequena mercearia da aldeia.

Quem ficou tem na distância às sedes de concelho o principal obstáculo. É difícil captar investimento, é complicado trabalhar fora e regressar todos os dias a casa, quando a viagem para a Covilhã ou Fundão demora cerca de uma hora, se for em transporte próprio, porque de autocarro a volta é grande até chegar ao destino.

“Para segurar a malta nova falta emprego”

Maria Piedade Campos está resignada. Os irmãos estão na Alemanha, na Escócia, na África do Sul. Os dois filhos tiraram os cursos e já não voltaram, excepto para visitar a família e os amigos. A manutenção da escola merece o seu aplauso, até porque se lembra de quando a filha foi estudar para o Paul e depois para a Covilhã. “Vomitava todos os dias a ir para a escola, só eu sei como ela chegava a casa, e depois ainda tinha de ir fazer os deveres”. Ainda assim, sabe que o estabelecimento de ensino da aldeia tem os dias contados. “Antes cada casa tinha nove ou dez filhos, era uma miséria. Este ano nasceram cá não sei se um ou dois bebés. Não têm vagar para os fazer, põe-se a ver televisão”, comenta, com uma gargalhada.

Para além das minas, longe do movimento de outros tempos, mas que continua a ser a principal empregadora, não sobram muitos postos de trabalho. As várias estruturas de que a freguesia dispõe são a alternativa. No lar ou nos equipamentos da junta. A construção civil absorve os restantes postos de trabalho, insuficientes para toda a gente.

Quem é da terra realça as qualidades do sítio onde nasceu e o desejo de ali poder permanecer mais tempo, mas a distância em relação a bens e serviços é apontada como a principal contrariedade, apesar do hábito de se estar longe de quase tudo.

Paulo Albino, de 32 anos, também foi emigrante. Saiu de São Jorge da Beira aos oito anos, com os pais, rumo à Suíça. Voltou aos 25, para se libertar de vícios. “Numa aldeia estamos longe de tudo, as tentações são menores”. Sempre veio de férias e é aqui que se sente em casa, onde se sente bem, apesar de não ter tudo a que estava habituado antes. “Mesmo assim temos muita coisa. Há quatro cafés onde conviver e passar o tempo, há o lar, a extensão de saúde, temos multibanco, a filarmónica”, enumera. “Para segurar a malta nova o que faz mais falta é emprego, a mina ainda segura aí alguns jovens”, acrescenta Paulo, neste momento a colaborar com a junta de freguesia.

Jovens mineiros

Gonçalo Figueiredo, de 21 anos, é um desses trabalhadores da nova geração na mina. Está-lhe no código genético, como acontece com praticamente todas as famílias da terra. Já o pai, o avô, tios e outros elementos da família foram mineiros. “Não era o trabalho que desejava, mas gosto de lá estar”, confessa. Da sua idade, repara, são poucos os que estão a residir na localidade. Os estudos forçaram-nos a ir para fora e só regressam nas férias ou de vez em quando ao fim-de-semana. “Aqui não há oportunidades nenhumas. Gosto de cá morar, não trocava isto por nada, mas se não tivesse emprego na mina tinha ido também embora”.

O ambiente da aldeia é elogiado, só que por vezes diz sentir falta daquilo a que os quase 50 quilómetros para a Covilhã e os cerca de 40 para o Fundão o separam. “Nós passamos cá bem o tempo e nem precisamos de sair para nos divertirmos, mas se queremos ir ao cinema, é longe, a discoteca mais próxima é em Silvares, também não é perto”.

Outro jovem mineiro, à semelhança do pai e do avô, é Mário Batista, de 27 anos. “Se não for naquela empresa, trabalho fora da mina só na construção civil”. Mário tem observado uma “nova emigração” e diz que isso o preocupa, embora compreenda. “São pessoas com baixa escolaridade, que têm baixas expectativas e vêem na emigração a oportunidade de ter uma vida que em Portugal não podem ter”, sublinha. “Para as pessoas não irem embora faltam mais oportunidades de trabalho, falta captação de investimento que não obrigue as pessoas a emigrar”, defende.
Maior problema é a “distância e as acessibilidades”

Fausto Batista, presidente da Junta de Freguesia de São Jorge da Beira, concorda com a necessidade de investimento na localidade, que no entanto não se tem revelado fácil. “Lancei o desafio de serem apresentados projectos para a instalação de microempresas, que seriam apoiadas. Não apareceu nenhuma proposta”, lembra o autarca, para quem o maior problema para a freguesia e para a captação de investimento privado são “a distância e as acessibilidades”.

“Quem mora cá, para ir trabalhar para qualquer lado, tem de ir uma hora antes”, constata Fausto Bastista, que contrasta essa dificuldade de atrair empresários com os melhoramentos que têm sido feitos na antiga Cebola, nome de São Jorge da Beira até há 50 anos, quando a população, desconfortável com a designação, decidiu substituí-la pelo nome do padroeiro.

O turismo é uma janela de esperança. E se algum poder económico levou no passado os residentes a taparem o xisto de grande parte das casas, numa demonstração pública de que tinham melhorado as condições de vida, isso acaba no presente por dificultar o desenvolvimento de projectos relacionados com as Aldeias do Xisto.

A aposta no turismo continua a estar no horizonte, mas associado às minas. A intenção é recuperar 200 a 300 metros da entrada do túnel, já desactivado, na anexa Panasqueira, onde há três entradas para a mina, para que quem visite o local possa perceber como é o subsolo e o que é trabalhar lá. Primeiro falta tratar dos aspectos legais da cedência das casas, que a Beralt cedeu às famílias que lá moravam, embora as escrituras nunca tenham sido feitas. A segunda fase passa por garantir o financiamento para concretizar a ideia. “O aproveitamento do turismo poderá dar alguma dinâmica à freguesia”, acredita Fausto Batista.

(Reportagem completa na edição papel)
Ana Ribeiro Rodrigues

Notícias da Covilhã