Resgatam da escuridão eterna as riquezas da Natureza. Às vezes ela reclama o sangue de um mineiro. Na Panasqueira ou no Chile.
Nenhum homem devia cavar a própria sepultura. Quando abrem as entranhas da Natureza à procura dos seus bens mais preciosos, o medo é latente. O ambiente é inóspito, de isolamento, onde dia e noite são uma longa escuridão, entrecortada por pequenos pontos de luz e barulhos de maquinaria, em galerias abertas atrás dos filões que hão-de ser sugados como a própria vida dos mineiros. Sente-se um estranho fascínio.
Estes homens, cantados por poetas, padres e escritores como Aquilino Ribeiro, em ‘Volfrâmio’, já não andam ao garimpo, não usam canários peritos em cantar o aviso de gases tóxicos, nem ratos que detectam derrocadas iminentes.
Quando amanhã descerem às galerias, depois das férias a céu aberto, os mineiros da Panasqueira (uma das três explorações nacionais em actividade), levam mais um drama partilhado: o dos colegas soterrados vivos no Chile à espera de que as máquinas violadoras de montanhas sejam agora capazes de os resgatar para o mundo dos vivos.
As aldeias das viúvas, cognome dado em tempos a terras como São Jorge da Beira, de onde saíam os homens para as minas, caídos em combate por força do pó da rocha que lhes trespassava os pulmões em forma de silicose, vestem-se hoje de outras cores que a morte anda mais arredia.
MAIS SEGURANÇA
As condições de segurança e saúde dos mineiros nada têm em comum com as dos pioneiros da serra do Açor, nos concelhos da Covilhã e Fundão. Mas, a espaços, das profundezas de uma galeria ouve-se o grito abafado de uma vida que se esvai. O último deu-o um mineiro reformado, Joaquim Ramos Fernandes, 60 anos de vida e 37 de mina, porque a condição não o fez desistir. A 23 de Junho, o maquinista foi surpreendido pela rocha descontrolada que o esmagou num momento em que trabalhava sozinho.
O negro voltou a cobrir uma família de Alqueidão, na Barroca. Ana Florência Fernandes, 60 anos, doméstica, não trava os ais de desespero, enquanto recorda o marido, que "durante toda a vida nunca teve outro trabalho", como a generalidade dos colegas de profissão, muitos oriundos de famílias de Norte a Sul do País, que subiram à serra quando as guerras mundiais fizeram do volfo (volfrâmio para os mineiros) um minério essencial no fabrico de armamento.
"Não sei como foi o acidente. Ele trabalhava de noite e o genro estava com ele, mas ausentou-se para ir buscar uma máquina. Estava a encher vagões e foi atingido pela rocha", diz Ana Florência. "Ele fez lá a vida toda. Tinha prática. Há tantos anos que lá trabalhava, nunca imaginei uma coisa destas. Quando me contaram até pensei que fosse mentira".
O mineiro, atingido pela rocha quando estava num vagão no momento da descarga, deixa três filhos maiores de idade e um genro amargurado. Quiseram convencê-lo a abandonar as profundezas da terra, mas ele não deixou: "ele disse que ia continuar o trabalho que o segundo pai (sogro) lhe arranjou", conta Ana Florência, agora também em cuidados com os mineiros chilenos que vê na televisão: "coitados, ali soterrados... Ai meu Deus!"
DIFÍCIL MAS POSSÍVEL
O corpo foi retirado com a ajuda de Bernardo Teixeira Gouveia, que aos 50 anos leva 29 de trabalho na mina. "Eu nunca estive em risco, mas ajudei a tirar de lá três falecidos, o último há dois meses. Os outros morreram há mais anos. Foi muito doloroso para todos", recorda o jumbeiro (operador de jumbo), salientando, no entanto, que a mina já foi mais perigosa.
"É um trabalho um pouco difícil. Há muita humidade. Há riscos e é duro, mas não há o perigo da silicose como há mais de 25 anos, quando a furação da rocha era feita a seco e a poeira andava toda no ar. Quando chegaram os martelos pneumáticos passou-se a trabalhar com água". Quanto à situação no Chile, onde 33 mineiros estão soterrados a 700 metros de profundidade, destaca o duplo sofrimento dos envolvidos: "é complicado para eles porque não sabem se vão sair, nem como. E é complicado para as suas famílias, que também estão a sofrer".
Na Barroca Grande, alcandorado na encosta, em filas de casas iguais, o bairro dos mineiros lembra na simetria as galerias onde até 300 metros abaixo se extraem os minérios: volfrâmio, cobre e estanho. Os homens gozam os últimos dias das férias de Agosto antes do regresso à labuta de sete horas diárias com direito a meia hora de descanso para a bucha, comida em mesas de madeira rudimentares no subsolo.
A profissão não os assusta por aí além, pelo menos não parece e as palavras até saem escassas o mais das vezes. O tempo de silêncio diário forçado não lhes solta as histórias, antes faz acreditar que delas se desabituaram, habituados que estão a gerações seguidas de filhos do mesmo ofício. José Cunha Campos tem 66 anos, 23 na mina. Um dia, com uns amigos, partiu de Alijó, em Trás-os-Montes, e rumou à Panasqueira à procura de ganhar mais algum dinheiro – uns 1800 escudos (nove euros) no início. "É uma vida complicada, é difícil, embora agora existam os jumbos (brocas mecânicas que furam a rocha, chegadas na década de 1980) e padejadores (máquinas de encher). Eu ainda andei nove anos agarrado a um martelo pneumático". E antes dele andaram outros de picareta em punho a partir pedra e a carregar à pazada os vagões de minério, empurrados por homens ou puxados sobre carris para o exterior por cavalos.
"Aquilo lá em baixo é muito húmido (a temperatura média é de 18 graus). Há dificuldades, como a escuridão, mas tudo vai do hábito. Nunca tive nenhum problema, mas há lugares mais perigosos onde é preciso ter muita atenção. Ainda tivemos de fugir à frente das pedras", descreve José Cunha, reformado, que temia "ouvir o barulho do terreno a partir-se".
HISTÓRIA COMOVENTE
Quando lhe falam da situação dos mineiros no Chile, aí comove-se. Percebe o que está a acontecer-lhes? "Se percebo?! Aquilo custa muito". Se uma situação semelhante acontecesse na Panasqueira, o socorro seria mais rápido e fácil. "Esta é uma mina em rampas, com várias entradas, onde circulam














